Um dos fotógrafos mais importantes da história, o grande brasileiro Sebastião Salgado repousa sob árvore em floresta que ajudou a cultivar
As cinzas de Sebastião Salgado, um dos mais influentes fotógrafos dos séculos XX e XXI, foram depositadas no último sábado (16) nas raízes de uma peroba-amarela, no Instituto Terra, em Aimorés (MG). O gesto selou uma despedida simbólica. Agora, o corpo de Salgado agora nutre a floresta que ele próprio ajudou a renascer. Entenda na TVT News.
Fundado por ele e sua companheira de vida e trabalho, Lélia Wanick Salgado, o Instituto Terra transformou a fazenda em que o artista cresceu, antes devastada pela degradação ambiental, em uma referência internacional de restauração ecológica. O local onde o olhar de Sebastião se formou na infância é agora também seu repouso final.
“Nunca mais esqueceremos de Sebastião Salgado. Como diria nosso amigo Saramago (José), Sebastião não foi para as estrelas, ficou na terra porque ele era da Terra”, disse Lélia.
A cerimônia reuniu familiares, amigos e autoridades, e foi marcada por emoção. Lélia destacou o caráter íntegro de Salgado e sua capacidade de sonhar grande. Disse que ele foi movido pela coragem de perseguir ideias transformadoras, e que seu último gesto foi coerente com toda uma vida dedicada à beleza, à justiça e à reparação.
As cinzas foram enterradas junto às raízes da árvore, com a urna depositada ao lado. Pétalas brancas foram lançadas sobre a terra como uma última homenagem ao homem que, com sua câmera, ensinou o mundo a enxergar para além da superfície.
Sebastião reinventou a forma de ver
Sebastião Ribeiro Salgado Júnior nasceu em Aimorés, Minas Gerais, em 1944. Era o único homem entre dez irmãos e formou-se economista pela Universidade de São Paulo. Nos anos 1960, com a repressão da ditadura militar, exilou-se em Paris, onde iniciou carreira no sistema internacional, trabalhando para a Organização Internacional do Café. Foi em viagens de trabalho à África que a fotografia emergiu como paixão e linguagem de denúncia.
Abandonando a economia, Salgado se dedicou integralmente à fotografia a partir dos anos 1970. Seu primeiro trabalho de grande impacto foi sobre a seca no Sahel, região africana devastada pela fome. A partir dali, produziu reportagens icônicas sobre trabalhadores migrantes, deslocados por guerras e tragédias climáticas, camponeses latino-americanos, lavradores, mineiros, operários e refugiados, quase sempre em preto e branco, com profundidade emocional e dignidade.
Sua recusa em separar o indivíduo do contexto social se traduziu na escolha por séries fotográficas longas, imersivas e coerentes com seu olhar humanista. Publicou livros fundamentais como Outras Américas (1986), Trabalhadores (1993), Êxodos (2000) e Gênesis (2013), este último com foco na beleza e diversidade dos ecossistemas e povos tradicionais do planeta.
Além dos livros e exposições, Salgado alcançou o grande público com o documentário O Sal da Terra (2014), dirigido por Wim Wenders e seu filho Juliano Ribeiro Salgado. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário e sintetiza a trajetória de um artista que foi também ativista, intelectual e ambientalista.
“O maior legado que o Sebastião vai deixar para a gente é a reflexão de um mundo que ele deixou e que se a gente não cuidar desse mundo, vai acabar”, disse o fotógrafo Ricardo Stuckert à reportagem da Telesur, que estava presente na cerimônia.
Abertura da Exposição Gênesis, do fotógrafo Sebastião Salgado, no Centro Cultural Banco do Brasil. Foto: José Cruz/Arquivo Agência Brasil
Instituto Terra: uma floresta como legado
Em 1998, Sebastião e Lélia fundaram o Instituto Terra com o objetivo de reflorestar a fazenda da família em Aimorés, então completamente degradada após décadas de pecuária e desmatamento. Em pouco mais de 20 anos, o projeto recuperou mais de 600 hectares de Mata Atlântica e se transformou em um centro de formação e pesquisa em restauração ecológica.
O Instituto já plantou mais de 2 milhões de árvores e atua em dezenas de projetos de preservação, educação ambiental e recuperação de nascentes no Vale do Rio Doce. Tornou-se referência mundial e recebeu reconhecimento de entidades ambientais e científicas em diversos continentes.
Sebastião Salgado costumava dizer que seu trabalho fotográfico e o reflorestamento da fazenda estavam profundamente conectados, ambos exigem paciência, respeito à natureza e uma crença na transformação como força vital.













