Procedimento mira suposto aliciamento de brasileiras a partir de mensagens e documentos revelados nos Epstein Files
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento sigiloso nesta semana para apurar indícios de conexão entre o Brasil e a rede de aliciamento associada ao financista norte-americano Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais e morto em 2019. A investigação, conduzida pela Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes (UNTC), foi motivada por denúncias e pela divulgação de milhões de documentos relacionados ao caso pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no fim de janeiro — o chamado Epstein Files Transparency Act, que liberou mais de 3,5 milhões de páginas de arquivos internos do processo judicial norte-americano. Leia em TVT News.
Os arquivos tornados públicos nos EUA incluem trocas de e-mails, registos de pagamentos e conversas que podem indicar uma atuação de Epstein envolvendo mulheres no Brasil. Entre os documentos analisados estão comunicações datadas de 2006 a 2013 em que o financista aparece em contato com brasileiras, faz pagamentos a algumas delas, pergunta sobre modelos e sugere ajuda logística ou financeira para viagens internacionais, possibilitando interpretações sobre eventuais tentativas de aliciamento de mulheres brasileiras.
No centro da apuração está uma denúncia formal recebida pelo MPF na semana passada, que aponta para uma troca de mensagens ocorrida em 2010 entre Jeffrey Epstein e uma brasileira em que eles discutem a possibilidade de o bilionário organizar a vinda de uma mulher, descrita nos e-mails como residente nos arredores de Natal (RN), aos Estados Unidos. As conversas mencionam logística de viagem, pedidos de fotos em traje de banho e possíveis pagamentos, embora não seja possível, a partir dos arquivos públicos, confirmar se a viagem ou qualquer encontro de fato ocorreu.
A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges, responsável pela UNTC, afirmou em entrevista que o objetivo da investigação é analisar todas as situações que envolvam brasileiras nos arquivos e apurar se havia, de fato, redes ou esquemas de aliciamento com ramificações no Brasil. Segundo ela, a investigação busca subsidiar possíveis ações judiciais no país, avaliando se pode haver caracterização do crime de tráfico internacional de pessoas caso sejam identificadas práticas dessa natureza com vítimas brasileiras.
Embora a apuração esteja em estágio inicial e corra sob sigilo, uma preocupação central do MPF é justamente a identificação de possíveis redes de contato e exploração que se estendam além das fronteiras dos Estados Unidos. Parte dos e-mails analisados inclui não apenas conversas diretas entre Epstein e brasileiras, mas também menções a situações em que ele financiou despesas pessoais como procedimentos estéticos, compra de celulares e ajuda financeira para problemas familiares, em troca de intermediação ou encaminhamento de outras mulheres em seu círculo.
O procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior, de Natal, teria relatado às autoridades superiores do MPF a existência de indícios de “aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos sexuais com Jeffrey Epstein nos EUA”. A declaração reforça que o exame dos e-mails no contexto do Epstein Files chamou a atenção de investigadores no Brasil.
Até o momento, não há confirmação pública de que a investigação se estenda a outros estados brasileiros nem que tenha sido identificada qualquer outra pessoa com envolvimento direto nos e-mails além da denúncia já recebida. Autoridades brasileiras ressaltam que a complexidade probatória do caso é acentuada pelo decurso do tempo — muitas mensagens são datadas de mais de uma década atrás — e pela extraterritorialidade dos fatos, uma vez que boa parte das ações relacionadas a Epstein ocorreram fora do Brasil.
Além disso, a investigação no Brasil ocorrerá de maneira independente das conclusões ou considerações jurídicas feitas nos Estados Unidos. Embora a divulgação dos arquivos americanos tenha sido autorizada pelo Epstein Files Transparency Act, isso não significa que cada ocorrência nos documentos represente, por si só, crime ou culpabilidade. Especialistas enfatizam que a simples presença de registro de comunicação entre pessoas e a figura de Epstein não é prova automática de envolvimento em delitos, e que a investigação buscará elementos concretos de aliciamento ou tráfico que possam ser juridicamente caracterizados no ordenamento brasileiro.
O MPF não divulgou um cronograma público para a investigação e mantém a maior parte dos detalhes sob sigilo, inclusive para garantir a proteção de possíveis vítimas e evitar prejuízo à colheita de provas. Até o momento, não há informação oficial sobre a participação de outras instituições brasileiras, como a Polícia Federal, no caso, nem sobre pedidos de cooperação a autoridades norte-americanas, embora o uso de acordos internacionais seja comum em apurações que envolvem crimes com ramificações transfronteiriças.













