Glauber Braga ocupou a Mesa da Casa após anúncio de projeto que reduziria pena de criminosos como Jair Bolsonaro (PL)
Em votação na Câmara dos Deputados de condução questionável do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), o Plenário decidiu nesta quarta-feira (10) preservar o mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). Por 318 votos a 141, com três abstenções, os parlamentares rejeitaram a cassação e optaram pela aplicação da segunda punição mais severa prevista no Regimento: a suspensão do exercício do mandato por seis meses. Entenda na TVT News.
A suspensão de seis meses foi construída como alternativa diante da percepção da maioria de que a perda do mandato seria desproporcional. Glauber Braga ocupou a Mesa da Casa após anúncio de projeto que reduziria pena de criminosos como Jair Bolsonaro (PL), ex-presidente condenado e preso, o que motivou a apreciação da cassação. Dois pesos, duas medidas, porque bolsonaristas ocuparam por dias a Mesa no início do ano e foram tratados com delicadeza por Motta.
Mobilização por Glauber
Horas antes da votação, a resistência à cassação ganhou força com articulação suprapartidária. O próprio plenário sinalizou, em votação preliminar, que não alcançaria os 257 votos necessários para efetivar a perda do mandato. A preferência por uma penalidade alternativa, proposta pelo líder petista Lindbergh Farias (PT-RJ), foi aprovada por 226 votos a 220, impulsionando a saída política.
A solução foi endossada inclusive por parlamentares da oposição a Glauber. “Reconheço que ele errou, violou o Código de Ética, mas cassação seria exagerada”, afirmou Hildo Rocha (MDB-MA). Laura Carneiro (PSD-RJ) reforçou o argumento: “Reagiria também se provocassem falando da minha mãe na UTI.” Fausto Pinato (PP-SP) adotou o mesmo tom ao defender punição, mas não a medida extrema.
Para Talíria Petrone (PSOL-RJ), líder da bancada, prevaleceu “o bom senso”. “Conseguimos impedir que ele se tornasse inelegível por oito anos. Mantemos o mandato combativo do companheiro Glauber Braga”, afirmou.
Depoimentos
Em discurso antes da votação, Glauber Braga se emocionou ao descrever as ofensas feitas à sua mãe, internada em UTI, como gatilho da reação que gerou o processo disciplinar. “Calar o mandato de quem não se corrompeu é uma violência”, declarou. O deputado frisou que não acumula outros processos na Câmara.
Chico Alencar (PSOL-RJ) descreveu o colega como “presente nas comissões, nas causas e nas lutas”, enquanto Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que não havia proporcionalidade para uma cassação. “Não há como comparar o que ele fez para defender a honra da mãe doente com o caso de Carla Zambelli.”
Parlamentares da extrema direita defenderam a punição máxima. Kim Kataguiri (União-SP) contestou a narrativa das ofensas familiares e acusou Glauber de “incapacidade de debater o mérito”. Nikolas Ferreira (PL-MG) admitiu que defender a família justificaria reação, mas acusou o deputado de “mentir” e citou seu voto pela cassação de Daniel Silveira.
Violência no plenário pressiona Hugo Motta
A votação ocorreu sob forte clima de tensão, um dia após Glauber Braga ser arrancado à força da cadeira da Presidência da Câmara por agentes da Polícia Legislativa, a mando de Hugo Motta. O parlamentar havia ocupado o assento como forma de protesto contra a inclusão simultânea dos processos de cassação de Carla Zambelli, Delegado Ramagem e do próprio Glauber na pauta. “Que me arranquem desta cadeira e me tirem do plenário”, declarou na ocasião.
A ação policial atingiu também Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Célia Xakriabá (PSOL-MG), Rogério Correia (PT-MG) e Alencar Santana (PT-SP), que tentavam proteger Glauber. Todos registraram Boletim de Ocorrência na 5ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal e passaram por exame de corpo de delito.
A condução de Hugo Motta desencadeou críticas severas. “Vossa excelência perdeu as condições de continuar na presidência dessa Casa”, afirmou o líder do PT, Lindbergh Farias. Ele lembrou que, no início do ano, deputados bolsonaristas chegaram a “sequestrar a Mesa Diretora por 48 horas” sem qualquer ação da Polícia Legislativa. “São dois pesos e duas medidas.”
O petista responsabilizou o presidente da Câmara pelo caos: “Os golpistas foram cassados? Suspensos? Um dia sequer afastados? A responsabilidade pelo que aconteceu aqui é do senhor.”
Disputa no Conselho de Ética
O caso teve origem em abril de 2024, quando Glauber foi acusado de agredir Gabriel Costenaro durante manifestação organizada pelo MBL em frente ao Congresso. No Conselho de Ética, o deputado afirmou que reagiu após provocações reiteradas e ataques à sua mãe, situação que, segundo parlamentares que o defenderam, humaniza e atenua o episódio.
O relator Paulo Magalhães (PSD-BA) manteve a defesa da cassação até o último momento, alegando que os fatos haviam sido amplamente debatidos. As emendas apresentadas por Lindbergh Farias, que propunham suspensão e evitavam inelegibilidade automática, foram rejeitadas pelo relator, mas prevaleceram no plenário.













