Pesquisa investiga como sistemas de IA vêm sendo utilizados como companhia emocional, ocupando papéis de namorada, amiga, terapeuta
O avanço da inteligência artificial (IA) para além das tarefas produtivas e do mercado de trabalho tem alcançado um território sensível da humanidade: os afetos. Pesquisa em desenvolvimento na PUC-SP investiga como sistemas de IA vêm sendo utilizados como companhia emocional, ocupando papéis de namorada, amiga, terapeuta ou confidente, em um cenário marcado por solidão crescente e precarização do acesso à saúde mental. Entenda na TVT News.
O estudo parte de um paradoxo contemporâneo. “Vivemos um paradoxo: temos milhares de amigos online, mas relações cada vez mais frágeis. Isso abre espaço para que a IA seja usada como companhia, ocupando um lugar que vai muito além de ferramenta”, afirma a pesquisadora responsável pela investigação, Laura Hauser.
A hipótese central é que a IA deixou de ser percebida apenas como instrumento funcional e passou a operar como mediadora afetiva. Plataformas conversacionais e aplicativos de relacionamento com robôs virtuais oferecem interações personalizadas, disponíveis 24 horas por dia, com respostas calibradas para validação emocional. A promessa implícita é simples: presença constante, ausência de julgamento e adaptação total às preferências do usuário.
Simulação de afeto e seus limites
Do ponto de vista técnico, a IA não sente, ela simula. Ainda assim, a experiência subjetiva de ser ouvido por uma máquina capaz de responder com empatia calculada tem se mostrado suficiente para consolidar vínculos. “Segundo Laura, a IA simula o afeto, mas não o sente. Mesmo assim, a experiência de conversar com uma máquina ‘sem julgamentos’ tem atraído milhares de pessoas – ao mesmo tempo em que levanta questões éticas profundas sobre a substituição de vínculos humanos por vínculos artificiais.”
A pesquisa articula três eixos principais:
Epidemia de solidão – O aumento de relatos de isolamento social, especialmente em grandes centros urbanos.
Precarização da saúde mental – Dificuldade de acesso a atendimento psicológico e psiquiátrico, seja por custo, seja por oferta insuficiente.
Cultura da conveniência – Expectativa crescente de personalização e imediatismo nas relações, moldada por plataformas digitais.
Nesse contexto, a IA surge como solução pragmática para carências emocionais, oferecendo interações sob medida e sem fricção.
Mudança de paradigma
Levantamentos recentes citados na pesquisa apontam para transformações culturais significativas. Uma sondagem indicou que 30% dos brasileiros aceitariam um casamento com inteligência artificial. Em países asiáticos, já há registros de uniões simbólicas com entidades digitais. Entre adolescentes, três em cada quatro afirmaram considerar relações sexuais com robôs.
Os números sugerem que a questão deixou de ser mera especulação futurista. O debate desloca-se para as consequências sociais desse deslocamento afetivo.
“O que vai acontecer quando nos habituarmos a relacionamentos com IAs que fazem todas as nossas vontades? Quais os impactos para a vida em comunidade?”, questiona a pesquisadora.
A preocupação central não é apenas a adoção da tecnologia, mas o efeito cumulativo sobre competências humanas fundamentais, empatia, negociação, tolerância à frustração e construção de vínculos duradouros. Se a interação com máquinas elimina conflitos e divergências, qual será o impacto na capacidade de lidar com a complexidade das relações humanas?
Humanização das máquinas
Um dos argumentos desenvolvidos na pesquisa é a inversão simbólica em curso: máquinas tornam-se progressivamente mais “humanizadas”, enquanto humanos parecem cada vez menos tolerantes à imperfeição alheia. A customização algorítmica reforça bolhas afetivas nas quais o usuário raramente é confrontado.
Em artigo intitulado “Da ferramenta ao afeto: os relacionamentos com a IA e o mercado da solidão”, a pesquisadora analisa como expectativas de conveniência e personalização afetam a paciência e a disposição para o cuidado nas relações interpessoais. A lógica da eficiência, típica do ambiente corporativo, passa a contaminar o campo do íntimo.
Essa transição também dialoga com o universo do trabalho. Em debates recentes, como o painel “IAs Generativas Aplicadas” no CONGREGARH, em Porto Alegre, a pesquisadora destacou a necessidade de desenvolver habilidades humanas e não simplesmente treinar pessoas para competir com máquinas. A ênfase, segundo ela, deve recair sobre competências relacionais e éticas, especialmente em áreas como recursos humanos.













