Escala 6×1 impede que trabalhadores possam ter mais tempo com as famílias, afirma a deputada
Em sessão da Câmara dos Deputados, Erika Hilton confronta diretamente o argumento da “defesa da família” e da “religiosidade”, apontando que a escala 6×1 impede, na prática, que o trabalhador possa exercer esses direitos básicos ao privar pais e mães de tempo para o convívio familiar e para a fé. Leia em TVT News.
A escala 6×1 vai acabar, afirma a deputada Erika Hilton
Nos últimos dias, partidos de direita e grandes empresários estão atacando a proposta do fim da escala 6×1. A deputada federal Erika Hilton declarou nas redes sociais que “essas pessoas vão falhar e o fim dessa exploração vai se tornar realidade”.
Durante sessão na Câmara dos Deputados, Erika Hilton falou diretamente para os trabalhadores que estão na escala 6×1.
“Quero me dirigir aos trabalhadores do Brasil. Quero falar com aqueles que acompanham a gente pela TV Câmara ou que depois assistirão esses conteúdos: trabalhadores de shopping, trabalhadores da farmácia, trabalhadores de supermercados, trabalhadores de bares e todos os trabalhadores que ainda estão na escala 6×1”
Erika diz que as pessoas perguntam para ela quando vai acabar a escala 6×1, que, segundo ela, é um massacre dos trabalhadores.
“Ao rodar este Brasil nos abordam nas lojas, nos abordam nos aeroportos, nos abordam no comércio perguntando: ‘Deputada Erika, quando é que essa escala vai acabar?’ Nós estamos criando um cordão e essa escala vai acabar. Nós iremos fazer com que o Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados, consiga compreender que é inadmissível que o trabalhador brasileiro continue a ser massacrado na escala 6×1
Quem defende família e religiosidade deveria defender o fim da escala 6×1, afirma Erika Hilton
Erika Hilton critica parlamentares que são conta o fim a escala 6×1, mas pregam a defesa da família e da religiosidade.
“Dizem muito sobre como o trabalho dignifica. Mas será mesmo que um trabalho que você não tem tempo de descanso, que um trabalho que você não tem tempo com a sua família, que um trabalho que você recebe uma remuneração que no fim do mês mal dá para pagar suas contas, pode estar atrelado ao debate da dignidade?
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“Há aqueles que são contra a redução da jornada de trabalho, contra o fim da escala 6×1, defendem família, defendem a religião. Mas quando a gente vai pras ruas, para as manifestações, o que mais nós escutamos são mulheres, em sua grande maioria mães, que dizem: ‘Deputada, eu não vi meu filho crescer. Deputada, eu não consigo frequentar uma reunião da escola. Deputada, eu não tenho tempo para conviver com a minha família’ “, relata Erika.
A deputada pergunta: “que defesa de fé, que defesa de família é essa a qual nós ainda estamos aprisionando e obrigando o trabalhador brasileiro a manter numa escala desumana, sem dignidade?”
Erika Hilton e o presidente do Sindcato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges. Fim da escala 6×1 é demanda histórica da classe trabalhadora. Foto: Adonis Guerra
Para esses trabalhadores, a deputada traz esperança. “Trabalharemos noite e dia de maneira incansável até que todos os trabalhadores do território nacional tenham direito ao descanso, tenham direito ao convívio com a sua família, tenham direito à religiosidade. As pessoas não têm direito à religiosidade”, afrma Erika.
O que é o fim da escala 6×1?
O debate sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para folgar apenas um — está no centro da discussão nacional.
A proposta é uma bandeira histórica da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e demais centrais sindicais, que apontam ganhos concretos:
Melhoria na qualidade de vida
Redução do adoecimento e do absenteísmo
Aumento da produtividade
Estímulo ao consumo
Possível geração de novos empregos
Levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados mostra que 73% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1, desde que não haja redução salarial. Ou seja: a sociedade entende que trabalhar para viver é diferente de viver para trabalhar.
Protesto pelo fim da escala 6×1. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Quais os impactos do fim da escala 6×1?
De acordo com nota técnica do Institto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), o impacto econômico do fima da escala 6×1 é mínimo:
Na indústria e no comércio, o custo operacional adicional seria inferior a 1%.
A redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo do trabalho celetista em média 7,84%, mas, considerando o peso da mão de obra no custo total dos setores, o impacto se dilui.
Mesmo em setores com alta dependência de mão de obra, como vigilância e limpeza, o impacto é administrável e pode ser enfrentado com políticas de transição.
O próprio Ipea destaca que aumento de custo do trabalho não significa automaticamente queda na produção ou aumento do desemprego.
Um estudo do Dieese, encomendado pela Contraf-CUT, aponta que a implementação da jornada de quatro dias, entre os bancários que hoje realizam a jornada média de 37 horas semanais, teria o potencial de criar mais de 108 mil vagas no setor, ou 25% do total de vagas que existem atualmente.
“O fim da escala 6×1 pode gerar mais empregos e garantir ao trabalhador tempo para estudar, cuidar da saúde e ter lazer”, afirmou o secretário-geral da CUT, Renato Zulato
Para ele, reduzir jornadas exaustivas é uma medida concreta para abrir vagas e permitir que trabalhadores tenham tempo para qualificação e convivência familiar. “Não se trata apenas de tecnologia, mas de qualidade de vida”, afirmou, ao defender mudanças estruturais.
Argumentos contra o fim da escala 6×1 lembram a retórica das elites escravocratas contra a abolição. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil
Já um estudo divulgado em 2024 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou que a Inteligência Artificial (IA) afetará 60% dos empregos em todo o mundo: metade de forma positiva e metade de forma negativa, ou seja, eliminando a participação humana em vários setores.
Renato Zulato também alertou para os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. Segundo ele, a transformação digital já altera rotinas produtivas e pode ampliar desigualdades se não houver políticas públicas de qualificação.
“Estamos vivendo a era da inteligência artificial. Se não houver reflexão e políticas de inclusão, parte da população será excluída dos novos processos produtivos e sociais”, disse o secretário geral da CUT.
Acabar com a escala 6×1 é prioridade do governo, afirma Boulos
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, voltou a afirmar que acabar com a escala 6×1 é uma das principais prioridades do governo federal este ano.
“A proposta que nós estamos defendendo, junto com o presidente Lula, é o fim da escala 6×1, ou seja, no máximo, 5×2. No mínimo, o trabalhador ter dois dias de descanso por semana livres e reduzir a jornada máxima para 40 horas semanais sem redução de salário”, explicou.
Durante a participação na estreia do programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, Boulos disse que há muita resistência de empresários contra a medida, mas que já era esperado, a exemplo de outros avanços históricos como a implantação do salário mínimo, do 13º salário ou férias remuneradas.
“Eu acho que o país está pronto e a economia está pronta para o fim da escala 6 por 1. Não existe um único argumento que possa dizer que a sociedade brasileira não está pronta”, afirmou o presidente Lula. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
“Eu nunca vi patrão defender aumento de direito do trabalhador. Ele sempre vai ser contra, sempre vai contar um monte de lorota dizendo que vai acabar [com a economia]. O fato é que tudo isso foi aprovado historicamente no Brasil e a economia não ruiu”, afirmou Boulos.













