Porteiro denuncia que foi chamado de “negro sujo e macaco”, procura a polícia e, após relatar o caso à direção, é demitido
Um caso emblemático de racismo ocorrido em uma escola particular de Campinas (SP) ganhou desdobramentos nesta semana, com a Polícia Civil investigando a denúncia e o Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas apurando a conduta da instituição diante do episódio e da resposta à vítima. O episódio, segundo o relato do próprio trabalhador, evidencia não apenas a persistência de ofensas racistas no ambiente educacional, mas também possíveis falhas na proteção de funcionários negros em instituições de ensino privadas. Leia em TVT News.
O ex-porteiro Rodnei Ferraz, profissional com cerca de 20 anos de experiência na área de portaria, trabalhou por quatro meses na unidade escolar localizada no distrito de Barão Geraldo. De acordo com o boletim de ocorrência, o fato que motivou sua denúncia à polícia ocorreu em 15 de dezembro de 2025, quando três alunos do ensino médio, presentes na escola para realizar provas de recuperação, começaram a fazer barulho e confusão nos arredores do prédio.
Ao tentar repreender a bagunça, Ferraz foi alvo de ofensas comumente associadas ao racismo estrutural e à desumanização de pessoas negras. “Mas aí ele chegou e falou: ‘eu pago o seu salário, você é um sub-raça, um negro sujo e um macaco’”, relatou o porteiro em entrevista ao g1, conforme registrado em boletim de ocorrência.
A violência verbal de teor racista — que marca uma ostensiva desconsideração pelos direitos humanos e pela dignidade da pessoa humana — deixou Ferraz em estado de choque. Em outro trecho de seu relato à imprensa, ele descreveu o impacto emocional: “É revoltante, porque você se sente frágil e impotente com essa situação ridícula que aconteceu comigo”.
Após o episódio, Ferraz procurou a direção da escola para relatar o ocorrido, mas, segundo ele, acabou demitido dias depois, sem justificativa clara para a dispensa. Essa sequência de eventos — agressões racistas seguidas de desligamento do emprego — motivou a vítima a formalizar a denúncia junto à Polícia Civil, que agora investiga o caso como possível crime de racismo.
MPT investiga desdobramento de caso de racismo
O MPT de Campinas também instaurou um procedimento para apurar a conduta da instituição escolar diante da situação e do tratamento dispensado ao funcionário. A investigação busca avaliar se a escola tomou as medidas adequadas para coibir o racismo e proteger o trabalhador após sua denúncia. Até o momento, a direção da instituição ainda não apresentou uma resposta pública detalhada sobre o caso.
Especialistas em direitos humanos e sindicatos de trabalhadores defendem que o episódio expõe uma face persistente do racismo no Brasil: a normalização de discursos discriminatórios, mesmo em contextos educacionais, e a falta de mecanismos eficazes de proteção para trabalhadores negros que denunciam tais práticas. Dados oficiais apontam crescimento nas denúncias de racismo no estado de São Paulo, com mais de mil registros em 2025, o que representa um aumento em relação ao ano anterior.
Organizações antirracistas também destacam que instituições particulares de ensino têm a responsabilidade, legal e ética, de implementar políticas antirracistas, programas educativos sobre diversidade e mecanismos de resposta rápida a incidentes discriminatórios. A omissão institucional diante de casos como este pode configurar não apenas uma falha administrativa, mas uma violação dos direitos fundamentais dos trabalhadores.
O caso segue em investigação, com a autoridade policial e o MPT aguardando esclarecimentos da escola enquanto a comunidade de Campinas acompanha o desdobramento de um episódio que estimula debates sobre racismo, emprego e responsabilidade institucional no ambiente educativo.













